ANAIS

GT Processos Sociais e Práticas Comunicativas

 

 

Autor: ANDRADE, Samuel (UFMG)

Título: O ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO, SUA REVISTA E SEU MODO DE FAZER HISTÓRIA

 

RESUMO

 

Partindo das elaborações de Michel Foucault, Giorgio Agamben e Gilles Deleuze sobre o conceito dispositivo, buscaremos argumentar que o Arquivo Público Mineiro (APM), em sua primeira fase (1896 – 1913), funcionou como um arranjo de elementos que, na recém constituída república brasileira, buscou construir o estado de Minas Gerais como um sujeito histórico. O Arquivo era a instituição responsável por adquirir e organizar os documentos públicos, entre eles materiais relativos à legislação, à administração e às manifestações culturais mineiras. A lei que regulamentou a fundação do Arquivo estipulou também a criação da Revista do Arquivo Público Mineiro (RAPM), publicação constituída por um variado repertório de textos – como transcrições de documentos oficiais, monografias historiográficas, notícias relacionadas ao estado – e pela elaboração de catálogos dos documentos do Arquivo. Esta pluralidade conformou a RAPM como um instrumento essencial à publicização dos documentos e da pesquisa histórica mineira, incluída aí grande parte dos estudos sobre a imprensa de Minas Gerais. Nela foram publicados estudos e índices relativos aos periódicos mineiros, belorizontinos e sabarenses, assim como a primeira monografia historiográfica sobre a imprensa do estado – e é sobre essa diversidade de escritos que nosso artigo se detém. Nele, tomamos a noção de dispositivo histórico como uma ferramenta metodológica de aproximação do passado que busca “não a uma realidade subterrânea que se apreende com dificuldade”, como diria Foucault (2013, p. 116), mas a uma rede de superfície em que as relações e embates conformam o próprio tempo. A partir de análises da RAPM e dos escritos históricos sobre a imprensa mineira, buscamos desemaranhar o dispositivo que é o APM, no qual identificamos: a) uma dimensão institucional, que definia a criação de uma repartição pública para cuidar dos documentos mineiros ; b) uma dimensão epistemológica, que estipulava um modo de conceber a produção histórica; c) uma rede de correspondentes, que contribuíam para a manutenção do acervo documental e para a legitimação política do Arquivo. Em um segundo movimento analítico, tomamos a Revista do Arquivo como um dispositivo midiático e buscamos analisar como a publicação responde a uma demanda de publicidade do APM e se consolida como elemento comunicacional central desse projeto de tessitura da história de Minas Gerais.

 

Palavras-chave: Dispositivo. História. Imprensa.

 

 

Autora: BARROS, Ellen Joyce Marques (PUC Minas).

Título: O RETORNO DO GIGANTE

 

RESUMO

 

Movimentos populares de grandes proporções irromperam-se diversas vezes e em prol de inúmeras causas ao longo da história mundial. No Brasil, se pensarmos nos últimos 30 anos, dois grandes movimentos deixaram suas marcas: os comícios das Diretas já (1984) e o Impeachment de Collor (1992). No primeiro, mais de um milhão de pessoas foi às ruas brigar por eleições diretas. Feridos em seus direitos básicos por uma ditadura militar cruel, o povo, em especial os jovens, mostrou que era possível mudar o país. Marcantes também foram as conquistas dos hoje não tão jovens “caras pintadas” de 1992 que, indignados com a corrupção e a política econômica do então presidente, se aglomeraram aos milhares exigindo sua retirada do poder. No entanto, a atual geração não tinha experimentado tamanha comoção. Foram 21 anos de aparente calmaria e conformismo com a situação do país.

Pensando nisso, a proposta do artigo é compreender os movimentos sociais que abalaram o Brasil em junho de 2013 em suas implicações comunicacional, estética e política, com foco no que essas manifestações têm de diferente dos movimentos populares que ocorreram no passado. Neste sentido, é possível adiantar que uma peculiaridade inerente a onda de protestos denominada “Jornadas de junho” é justamente a polifonia e a multiplicidade das manifestações. O nós que surgiu nesse contexto não é homogêneo ou mesmo coerente. O sentimento de indignação e insatisfação é coletivo, mas as demandas eram tão múltiplas quanto os sujeitos que compunham aquela multidão.

Para compreender tal fenômeno, parte-se da análise das coordenadas básicas que norteiam acontecimentos de toda ordem: o espaço e o tempo. O artigo abordará assim, as experiências com essas instâncias do real, ou seja, a espacialidade na reconfiguração de um novo espaço público, inclusive virtual; e a temporalidade alterada pela lógica midiática, em especial pelas novas tecnologias comunicacionais e pelas redes sociais virtuais. Para tanto, recorremos a conceitos como o de midiatização da sociedade conforme trabalhado por José Luiz Braga, o de eterno retorno do diferente pela perspectiva deleuziana, o de vita activa com foco no âmbito da ação, como proposto por Hannah Arendt, e o de dissenso na “partilha do sensível” cunhado por Rancière.

 

Palavras-chave: Comunicação1. Midiatização 2. Manifestações 3.

 

 

Autores: BARROSO, Lorena Goretti Carvalho; SANTANA, Wedencley Alves (UFJF).

Título: O SUS NA IMPRENSA MINEIRA VOZES, IMAGENS E SENTIDOS

 

RESUMO

 

O presente trabalho pretende contribuir para as reflexões acerca das mudanças e regularidades na imagem e na produção de sentidos sobre a saúde pública no Brasil e em Minas Gerais, nesta segunda década do século XXI. Compreendemos que esta imagem é fortemente influenciada ou mesmo constituída pelos discursos da/na mídia sobre a saúde e, principalmente, sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), enquanto fórum de institucionalização da saúde pública brasileira. Diante disso, e a partir dos aportes teóricos da Análise de Discurso (Pêcheux-Orlandi), em diálogo com autores do campo da Saúde, da Comunicação e da História, a presente pesquisa pretende investigar como se dão os discursos institucionais e jornalísticos sobre saúde pública em Minas Gerais e de que forma aspectos ligados ao SUS são silenciados ou ressaltados pelo jornal mineiro de maior circulação, o Estado de Minas, entre os anos de 2011 e 2014. Essa proposta justifica-se por ainda existirem lacunas importantes nos estudos sobre comunicação e saúde em Minas, estado com forte representatividade no cenário político-econômico brasileiro. Neste cenário, escolhemos como recorte temporal o mandato de Dilma Rousseff (PT), na presidência e de Antônio Anastasia (PSDB), como governador de Minas, governantes de instâncias de poder diferentes e partidos políticos adversários. Este artigo, que reúne revisão bibliográfica sobre as temáticas citadas e a proposta de análise, é resultado de pesquisa de mestrado, em desenvolvimento. Além disso, se integra à pesquisa “O SUS ENTRE ASPAS: Modos de textualização das vozes e dos sujeitos da saúde pública na imprensa (1995 – 2014)”, cuja hipótese central é de que a imagem que temos da saúde pública no Brasil pode estar em dissonância em relação às lacunas e os avanços da saúde no país, atestadas por pesquisas efetivas realizadas pelos próprios meios, de forma a ser menos o resultado de uma correlação direta entre o coletivo social e o atendimento e mais um efeito das mediações promovidas pelos veículos de comunicação.

 

Palavras-chave: Comunicação. Saúde Pública. Análise do Discurso. Imprensa Mineira.

 

 

Autora: BETTENCOURT; Alice Enes de Matos (UFJF).

Título: COMUNICAÇÃO, SAÚDE E MULHER: DISCURSOS SOBRE SAÚDE MENTAL NA REVISTA CLÁUDIA

 

RESUMO

 

As relações de poder atravessam diversos setores da sociedade, entre eles a saúde e a comunicação. Foucault chamou de biopoder a forma de exercer controle e normatizar o cotidiano dos indivíduos através de cuidados médicos e da busca por ser saudável. No campo da saúde mental, esse biopoder se exerceu classificando comportamentos considerados desviantes como loucura. A área foi um território de disputas de discursos durante o século XX e muitos dos preconceitos e excessos de medicalização foram superados. Ainda hoje, o embate entre diferentes correntes se faz presente questionando afirmações anteriormente estabelecidas como verdades.

A comunicação também é transpassada por relações de poder, inclusive as revistas femininas, abordadas neste trabalho. Segundo Buitoni (1986) a imprensa feminina reproduz e ajuda a constituir discursos que irão repercutir na identidade das suas leitoras. Oliveira (2008) aponta estudos que mostram que a saúde da mulher é pouco abordada nas revistas femininas, e aparecem majoritariamente ligadas à beleza e a saúde reprodutiva. Isso é um dado discursivo que demonstra a reprodução do discurso que associa a imagem da mulher à beleza, maternidade e juventude é ainda uma realidade. E aponta para a hipótese de que esse seja o discurso predominante nas publicações. O que não significa que o questionamento desse imaginário sobre a mulher não seja também uma realidade, já que o que chamamos de imprensa feminina trata-se de um conjunto de veículos com diferentes perfis, linhas editoriais e com profissionais que podem estar inseridos nas mais diversas formações ideológicas.

O presente artigo trará resultados preliminares da nossa pesquisa, abordando o discurso sobre saúde mental feminina na revista Cláudia, em seus primeiro anos de publicação. Para isso utilizaremos os conceitos da Análise de Discurso franco brasileira de Michel Pêcheux e Eni Orlandi. O trabalho vai contribuir com a pesquisa de mestrado em que está inserido, onde o objetivo principal é compreender como se constituem os discursos sobre bem-estar e mal-estar da mulher nas principais revistas femininas veiculadas no Brasil.

 

Palavras-chave: Saúde; Discurso; Poder; Revista; Cláudia.

 

 

Autora: COÊLHO, Tamires Ferreira (UFMG).

Título: INFLUÊNCIAS DE MARCAS CULTURAIS GAÚCHAS NAS PRÁTICAS COMUNICATIVAS DA COMUNIDADE CS POA

 

RESUMO

 

Este trabalho traz um recorte de uma dissertação de mestrado que teve o objetivo de investigar como se constituem os processos comunicativos presenciais e digitais nas relações culturais/identitárias da comunidade CS POA (Couchsurfing em Porto Alegre) e que perspectivas oferecem para a cidadania comunicativa e cultural. A pesquisa foi desenvolvida a partir de uma combinação metodológica entre netnografia e elementos etnográficos, de forma a tentar abarcar toda a complexidade da comunidade CS POA, cujas interações se dão em âmbito presencial e digital (nas redes sociais Couchsurfing e Facebook). Levamos em conta os processos de globalização e de midiatização, que incidem de forma relevante em nosso objeto, bem como a cultura da hospitalidade (essencial para entender a rede social na qual a comunidade surgiu), as identidades e os hibridismos. Dentre as inúmeras culturas e identidades culturais que atravessam CS POA e seus membros, as culturas e identidades gaúchas e de Porto Alegre estão entre as mais importantes para nossa investigação. Elas ajudam a moldar o contexto e os cenários digital e presencial da comunidade, interferindo em práticas e discursos produzidos em âmbito comunitário. Brignol (2004) explica que a identidade cultural gaúcha (ou suas muitas identidades) é marcada por demandas distintas (ética, mercadológica, de gênero e de classe). Os sujeitos expressam e vivem essa identidade gaúcha na internet, que, nunca foi fixa e agora parece ganhar outras dinâmicas (BRIGNOL, 2004), sobretudo se pensarmos no confronto entre essa e outras identidades que circulam nas redes. Em CS POA, apesar da tendência ao respeito e à integração de culturas, há uma influência bastante forte das culturas gaúchas e porto alegrenses. As tradições gaúchas são mostradas muitas vezes como uma das melhores características de Porto Alegre aos seus visitantes e turistas, em 2013 houve até um meeting (encontro semanal da comunidade) especial em um piquete do Acampamento Farroupilha – uma das principais festas culturais gaúchas e talvez a mais cultuada entre os tradicionalistas. Esses atravessamentos do tradicionalismo gaúcho na comunidade também podem se impor diante de outros elementos culturais exteriores ao gauchismo e interferir nas práticas de cidadania cultural e comunicativa às quais a comunidade se propõe.

 

Palavras-chave: Marcas Gaúchas. Couchsurfing. CS POA.

 

 

Autor: CUNHA, Cristiano Diniz (PUC Minas).

Título: INTERAÇÕES, DISPUTA DE SENTIDOS E RESSIGNIFICAÇÕES NAS MÍDIAS SOCIAIS: COMO O SLOGAN VEM PRA RUA SE TORNOU GRITO DE GUERRA

 

RESUMO

 

O trabalho investiga como interações entre organizações e seus públicos, naturalmente complexas, podem estar se tornando ainda mais sofisticadas devido ao alto grau de midiatização da sociedade contemporânea, especialmente nas plataformas de mídias sociais. O estudo se desenvolverá sob a ótica relacional, considerando interlocutores como sujeitos de produção e interpretação de sentidos; e discursos como símbolos que trazem as marcas de sua produção, dos sujeitos envolvidos, de seu contexto (FRANÇA, 2006). O ponto de partida teórico está calcado em pensamentos de autores (CASTELLS, 1999; DI FELICE, 2008; FAUSTO NETO, 2010; SODRÉ, 2002) que relacionam a passagem do século XX para o XXI como marco de transição da sociedade contemporânea, com a adoção efetiva de práticas sociais/comunicacionais que reconfiguraram seu modo de operar. Nesse contexto, as mídias sociais assumem papel de protagonismo ao reformular práticas sociais com “valores constituidores da cultura e do agir em nossa época” (DI FELICE, 2011, p.161). Trata-se de uma revolução comunicativa propiciada pelas tecnologias digitais, a quarta na história da humanidade após a invenção da escrita, da impressão e dos meios de comunicação de massa (DI FELICE, 2008). Esse cenário torna o trabalho de cognição mais complexo gerando um “novo regime de produção de sentidos que relativiza outras dimensões determinísticas…” (FAUSTO NETO, 2010, p. 89). As possibilidades de ressignificação no que Castells (1999) nomeou sistema multimídia, se dão com a circulação de “várias mensagens no mesmo modo de comunicação, com facilidade de mudança de uma para a outra”, produzindo efeito que “reduz a distância mental entre as várias fontes de envolvimento cognitivo e sensorial”. Tais mudanças alteram a condução de processos de comunicação, inclusive organizacionais, e propulsionam o movimento crescente de difusão e aumento do número de emissores (FAUSTO NETO, 2010). Para observar as transformações, propõe-se estudo de caso do fenômeno de apropriação, ressignificação e recirculação da campanha publicitária “Vem pra rua”, da Fiat Automóveis, nos protestos de 2013. A maior fabricante de carros do País buscava participar de momento histórico do Brasil – copas do Mundo e das Confederações. O que a organização não esperava é que elementos de sua comunicação – slogan, jingle e vídeos – se tornassem gritos de guerra das mobilizações, cuja centelha inicial era justamente o questionamento à mobilidade nos grandes centros urbanos.

 

Palavras-chave: Comunicação Organizacional. Interações em rede. Ressignificação nas mídias sociais.

 

 

Autora: GOMES, Paula Lima (PUC Minas).

Título: CONFLITO DE MÔNADAS NARRATIVAS UMA DISPUTA PELA HEGEMONIA DE SENTIDO ACERCA DO CONFLITO ISRAEL-PALESTINO

 

RESUMO

 

O artigo trata sobre a disputa narrativa de israelenses e palestinos em torno da significação do próprio conflito mediado por suas mônadas autopoiéticas e antitéticas, ou seja, por seus sistemas fechados em si mesmos que funcionam por meio da autogestão e da negação da narrativa do outro. Independente da natureza do relato (acadêmico, jornalístico, testemunhal, etc.) e da versão dos fatos (israelense ou palestina), ambos parecem acionar, neste conflito de narrativas, um processo semelhante de “monodização” baseado na redução das possibilidades interpretativas que a tencionariam e na criação de um consenso subjetivo de sentido, ao mesmo tempo geral (comunidade internacional) e particular (seus pares), em busca da hegemonização da leitura sobre os fatos – sendo esta, a aparente causação final de ambos. Este paper, dividido em três partes, inicia com a contextualização do conflito Israel-palestino (MORRIS; PAPPE), tencionando-a desde o princípio a partir dos autores usados. Depois discute, numa perspectiva semiótica (PIERCE, 1977; PINTO), o processo de produção de sentido que está em jogo e que, no caso deste estudo, ocorre no contexto midiático. Além de introduzir o conceito de mônada (SPINOZA; LEIBNIZ) e a reflexão complementar sobre autopoiese (MATURANA, 2004). Na terceira e última parte, apresentam as mônadas em questão, por meio de alguns objetos: dois textos teóricos de Ilan Pappe (2011) e Benny Morris (2008); dois vídeos do governo de Israel e de ativistas palestinos; algumas matérias recentes sobre o atual confronto Israel-palestino, iniciado em 15 de julho de 2014 e ainda em plena existência. Todos, levantando uma reflexão histórica e os quatros primeiros, especificamente, atuando numa lógica visível de resposta a narrativa do outro no campo midiático. Em relação a metodologia, o artigo se organiza, basicamente, a partir da pesquisa bibliográfica sobre os fenômenos e conceitos abordados (I e II), além da análise de discurso sobre os relatos estudados em questão (III).

 

Palavras-chave: Conflito. Sentidos. Mônada. Israel. Palestina.

 

 

Autor: GUIMARÃES, Bruno Menezes Andrade (UFMG).

Título: REPRESENTAÇÃO, INTERAÇÃO E RECONHECIMENTO EMBATES DISCURSIVOS EM TORNA DA (DES)CONSTRUÇÃO DO SUJEITO RELIGIOSO NA INTERNET

 

RESUMO

 

Os processos de representação simbólica de indivíduos em ambientes virtuais ocorrem de diferentes maneiras. No âmbito da internet, é possível perceber uma infinidade de produções que lançam mão da sátira e da ironia para colocar em questão a veracidade e autenticidade de determinados grupos. Especificamente para o alcance desses objetivos, o uso de estereótipos é uma das alternativas mais comuns, uma vez que são de fácil leitura por fazerem críticas diretas e reduzir os sujeitos a poucas características (HALL, 1997). A partir de tais processos, abordaremos alguns dos embates discursivos entre cristãos e ateus proporcionados pelo vídeo “Especial de Natal”, do canal de humor para a internet “Porta dos Fundos”. Por meio de estereótipos, produtores, roteiristas e atores desconstroem sentidos tradicionalmente atribuídos à religião cristã. Nitidamente afetados, os cristãos se posicionam de forma contrária ao conteúdo dos vídeos e, engajados em comentários que manifestam indignação, objetivam o fim do modo de representação considerada incoerente e ofensiva. Entretanto, trata-se de um embate justamente porque, do outro lado, sujeitos que se identificam com o discurso apresentado também se engajam em comentários de apoio. Simpáticos aos vídeos e de forma contrária ao posicionamento dos cristãos, os ateus movimentam a outra parte dessa luta por reconhecimento. Com isso, as arenas de debates instauradas, haja vista essas representações que se predispõem a desconstruir sentidos pertencentes a comunidades específicas, movimentam atores engajados em lutas por reconhecimento na esfera da estima e do respeito no âmbito social.

Para fins metodológicos, em um primeiro momento o artigo aborda a emergência e até mesmo a importância de conflitos para a constituição do “eu” proposto por G. H. Mead (1967). A partir daí, analisamos a construção da representação feita por “Porta dos Fundos” baseada em estereótipos do sujeito religioso cristão. Em seguida, determinado recorte de comentários deixados na página do Youtube que hospeda o vídeo “Especial de Natal” busca mostrar condições indiciais para uma luta por reconhecimento em prol da esfera da estima social. A. Honneth (1995) oferece subsídios teóricos capazes de sustentar tais aspirações de pesquisa. O objetivo final do artigo é o de analisar se tal luta possui efeitos deliberativos satisfatórios ou se não passa de meras tentativas persuasivas online.

 

PALAVRAS-CHAVE: Representação simbólica. Religião. Porta dos Fundos.

 

 

Autor: HERRERA, Alexei Padilla (UFMG).

Título: MEIO AMBIENTE NA REDE TRATAMENTO COMUNICATIVO DAS QUESTÕES AMBIENTAIS NA INTRANET DA UNIVERSIDADE DAS CIÊNCIAS INFORMÁTICAS (UCI) DE HAVANA, CUBA

 

RESUMO

 

Segundo Gro Brundtland (1987) o desenvolvimento sustentável será um desafio importante no próximo século. A participação popular é decisiva para essa tarefa. Só por meio da comunicação poderemos trabalhar a favor de uma causa comum, de um interesse comum para melhorar a nossa situação. A comunicação está relacionada basicamente com a democracia, com a participação, com a divulgação de conhecimentos, com a capacidade para dirigir nosso futuro. O presente artigo faz uma abordagem sobre os resultados da pesquisa “Meio ambiente na rede. Tratamento comunicativo das questões ambientais na intranet da Universidade das Ciências Informáticas (UCI) de Havana, Cuba. Objetivo deste estudo consistiu em identificar a relação entre o tratamento comunicativo da questão ambiental na intranet da UCI e as percepções ambientais dos comunicadores que elaboraram os conteúdos publicados no site, durante o ano 2008 até março de 2009. O estudo teve como referentes teóricos o modelo dialético da comunicação proposto pelo pesquisador espanhol Manuel Martín Serrano e o estudo “Meio ambiente e desenvolvimento sustentável nas percepções dos trabalhadores dos meios de comunicação”, efetuado em 2006 pelo Centro de Investigações Psicológicas e Sociológicas (CIPS). Trata-se de uma pesquisa empírica, comunicológica e descritiva. As técnicas utilizadas foram análise de conteúdo, entrevista, survey e observação participante. Os dados obtidos corroboraram em primeiro lugar, a relação que se estabelece entre as percepções ambientais dos comunicadores e tratamento da temática ambiental nas matérias publicadas no site. Depois de identificar os principais pressupostos, o autor concluiu que o tratamento comunicativo da questão ambiental na Intranet da UCI era empírico, com limitações conceptuais, falta de sistematicidade e tinha uma prioridade menor dentro da política editorial da intranet. A pesquisa dá continuidade a um tema pouco abordado nas pesquisas da Faculdade de Comunicação da Universidade de Havana, e vincula com a comunicação um campo de estudo abordado pela Psicologia e a Sociologia. Baseados nos resultados obtidos foram elaboradas recomendações para o planejamento de estratégias de capacitação para os comunicadores, planos de trabalho e para fazer modificações na política editorial da intranet.

 

Palavras-chave: Percepções ambientais 2. Tratamento comunicativo 3. Universidade das Ciências Informáticas.

 

 

Autora: LERY, Julia (PUC Minas).

Título: (NÃO) É SÓ UMA PIADA HUMOR E POSICIONAMENTO POLÍTICO NA TELEVISÃO BRASILEIRA

 

RESUMO

 

Um dos grandes paradoxos da programação midiática atual, conforme identifica Turner em Ordinary people and the media: the demotic turn, está na parcela de espectadores que consome programas de humor que envolvem atualidades e sátira política, mas não consome as próprias notícias nos jornais. Este fenômeno estaria ligado ao descrédito do modelo de jornalismo “imparcial” e “objetivo”, principalmente frente ao público jovem, que aposta no modelo opinativo e cínico, tabloidizado, que mistura humor com assuntos atuais. É uma segmentação de mercado prevista até mesmo pela publicidade, e que gera produtos midiáticos mais provocativos, e menos interessados em fazer concessões à unanimidade e à civilidade.

Em busca de desdobramentos dessa relação, este trabalho se propõe à apreciação crítica dos programas Agora é tarde, com Rafinha Bastos, e The Noite, com Danilo Gentilli. À partir da identificação e análise das marcas de ironia e sátira que dão origem ao discurso humorístico que se declara politicamente incorreto, o objetivo é fazer um estudo político e semiótico desse humor.

De acordo com a perspectiva de luta cultural de Stuart Hall é possível entender que o humor politicamente incorreto, que afronta minorias, é uma reivindicação política por significação excludente de signos de linguagem. Ao reforçar discursos excludentes em meio à assuntos da atualidade que podem facilmente ser tomados como jornalismo ou entrevistas, tornando risível tudo o que os contradiz, esse humor reivindica espaço midiático para os valores da classe média tradicional, antagônicos aos interesses e valores da chamada “nova classe média”. Este conceito, usado para determinar a classe ascendente, é contudo, questionado por Jessé Sousa. Para o autor, a reprodução de privilégios de classes e as desigualdades sociais são baseadas em dimensões não econômicas, mas simbólicas, ligadas a aportes ideológicos, morais, educacionais e culturais, e portanto não existe uma nova classe média, mas uma nova classe trabalhadora com maior poder de consumo.

É nessa perspectiva que a análise da luta de significados no humor se torna mais significativa: na medida em que tornar risível uma característica de determinado grupo reforça um critério de diferenciação supra-econômico e dominação cultural e política. Em uma sociedade midiatizada, na qual a luta cultural tem como arena importante os veículos de comunicação, o humor excludente misturado aos assuntos da semana na televisão parece um combatente ativo.

 

Palavras-chave: Humor. Entretenimento. Tabloidização. Virada demótica. Popular. Reação. Luta cultural.

 

 

Autor: MANA, Nuno (UFMG).

Título: A ESTÁTUA DE JEFFERSON PEDRAS FUNDAMENTAIS DO JORNALISMO E MONUMENTALIZAÇÃO DA HISTÓRIA

 

RESUMO

 

Nosso trabalho consiste em um exercício de exploração crítica dos fundamentos do jornalismo noticioso estadunidense, tomado como encarnação de um paradigma jornalístico ocidental dominante (SCHUDSON, 2001), por meio da revisão da historicidade de emblemas que lhes são caros. Tal revisão dá-se a partir da reflexão em torno de ilustres monumentos erguidos a seu propósito, como maneira de acessar um universo simbólico que se pretende valorizar. A escultura de bronze em homenagem a Thomas Jefferson, posicionada em frente a escola de jornalismo da Columbia University em Nova York é nosso ponto de partida para a compreensão de como um cânone jornalístico vem sendo historicamente construído e afirmado. Em última medida, é a própria experiência da história (FOUCAULT, 2013) que se coloca como questão na tessitura simbólica e material desse paradigma.

A estátua de Jefferson foi eleita para esse exercicio pela riqueza de referências que ela convoca, e pelo eixo que ela nos permite visualizar, expressando concretamente relações de poder que atravessam o universo jornalístico. Em primeiro lugar, ela nos remete à constituição política e moral dos EUA, o protagonismo de Jefferson, bem como Benjamin Franklin e outros revolucionários conhecidos como “pais fundadores”, e à relação umbilical entre a fundação da imprensa e da democracia estadunidense. Ela nos permite retomar a constituição de pilares do jornalismo nos EUA, como a publicação da Primeira Emenda à constituição do país, e a revisão de valores como verdade e liberdade de imprensa historicamente materializados. Além disso, ela nos convida a encontrar uma das mais importantes instituições para a composição do jornalismo enquanto campo de conhecimento, a própria escola de jornalismo da Columbia. Na pioneira faculdade, encontramos as marcas dos discursos formulados no início do século XX por Joseph Pulitzer, bem como seu legado presente nos prêmios Pulitzer e os Pulitzer Prize Seminars.

Percorrer os meadros da história oficial do jornalismo estadunidense e ultrapassando sua monumentalidade (NIETZCHE, 1980) – buscando suas contingências, falibilidades e contradições – é uma forma de desnaturalizar os modos hegemônicos de valoração e do saber jornalístico, desviando-nos de suas aparentemente perenes estruturas. Tal questionamento é importante para a compreensão dos embates que constituem não só nossa noção de jornalismo, mas da própria democracia (RANCIÈRE, 1995) e da história que a possibilita.

 

Palavras-chave: Jornalismo. Monumento. História.

 

 

Autores: OLIVEIRA FILHO, José Tarcísio da Silva; COUTINHO, Iluska (UFJF).

Título: A QUALIDADE NA COBERTURA DE MEGAEVENTOS ESPORTIVOS: UMA ANÁLISE DOS PARÂMETROS ADOTADOS PELA TV BRASIL NA “COPA DAS COPAS”

 

RESUMO

 

Mesmo fora dos gramados, a mídia escreveu um capítulo à parte na considerada Copa das Copas, em 2014. O clima de pessimismo disseminado pela imprensa hegemônica nos preparativos se apresentou distante da narrativa otimista vista durante os dias do megaevento esportivo no Brasil. Apesar da fácil percepção dessa mudança, pouco se falou da cobertura nas emissoras públicas brasileiras. Custeadas pelo capital do cidadão, é um espaço alternativo onde muitos critérios de notícia se distanciam dos praticados pelas emissoras comerciais, focadas em índices de audiência. Neste contexto, em julho, foi lançada a terceira edição da revista do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), responsável pela gestão das atividades da TV Brasil, emissora pública. Na publicação, o esporte foi manchete e induziu a uma discussão sobre como deveria ser a cobertura dessa temática na TV Pública. No editorial, a presidente do Conselho, Ana Fleck, disse esperar “contribuir para que a cobertura de eventos esportivos pelos canais públicos possa ser diferente em relação a dos privados”. Jornalistas, sociólogos e membros do conselho levantaram uma espécie de “valores notícia” para a cobertura de eventos esportivos na mídia pública, como o debate de ideias, aproximação do jornalismo investigativo e a valorização da diversidade e do regionalismo. Considerando essas reflexões, propomos a análise do conteúdo do Jornal Nacional, veiculado por uma emissora comercial, e do Repórter Brasil, da TV Brasil, para verificar se os ideais defendidos pelos especialistas na revista foram levados em consideração pelas emissoras na Copa – e se realmente há um distanciamento entre a cobertura de ambas. Serão considerados para a análise, o material jornalístico veiculado na edição anterior e posterior aos sete jogos disputados pelo Brasil. A escolha se deve a relevância desses momentos no jornalismo, devido à proximidade dos jogos e a repercussão dos resultados. A discussão teórica será feita através dos estudos de Coutinho (2013) que avaliou a programação da TV Brasil e o compromisso da comunicação pública com a sociedade, os indicadores de qualidade formulados por Bucci (2012) e Gomes (2006), e a discussão sobre televisão pública na América Latina organizada pelo professor colombiano Omar Rincón (2002), que reúne ensaios de outros pesquisadores latinos. Espera-se que a pesquisa contribua para o aprimoramento da cobertura jornalística diante dos megaeventos esportivos, como as Olimpíadas de 2016.

 

Palavras-chave: Comunicação pública; Cobertura Esportiva; TV Brasil.

 

 

Autora: OLIVEIRA, Vanessa Veiga de (UFMG).

Título: COBERTURA MIDIÁTICA E SEMÂNTICA COLETIVA: ANÁLISE DO RELATÓRIO OFICIAL DA COMISSÃO DA VERDADE A PARTIR DA TEORIA DO RECONHECIMENTO

 

RESUMO

 

O presente trabalho tem como proposta analisar a cobertura midiática acerca da divulgação de um dos relatórios oficiais produzidos pela Comissão Nacional da Verdade. A intenção é identificar as questões que o jornalismo destacou acerca da pesquisa conduzida pela CNV sobre os centros clandestinos de tortura existentes durante a ditadura militar. O objetivo final é refletir sobre a formação e a circulação de uma semântica, ou seja, de uma rede de sentidos compartilhados envolvendo a luta pelo reconhecimento do direito à verdade e à justiça no Brasil.

O trabalho tem como referencial teórico a discussão sobre lutas por reconhecimento desenvolvida por Axel Honneth (2003), um dos herdeiros da teoria crítica. O autor vê nos conflitos um ponto central para se entender processos de mudança social. O conflito – ou luta –que interessa a Honneth são aqueles originados das experiências de desrespeito, que por sua vez motivam ações que buscam o reconhecimento mútuo e que levam à evolução moral da sociedade. Consideramos que o trabalho da Comissão da Verdade pode ser interpretado à luz da teoria do reconhecimento, uma vez que a CNV é o âmbito da luta pelo direito à verdade e à justiça em curso na sociedade brasileira. Essa é uma luta que se desvela a partir do conflito existente na negligência do Estado em investigar e punir crimes cometidos durante a ditadura e que almeja um aprendizado coletivo da sociedade brasileira no sentido de que ela nunca mais aceite que um Estado seja o executor de práticas de tortura, de privação de direitos e de assassinatos.

Neste trabalho, procuramos explorar a articulação do conceito de reconhecimento, como apresentado por Axel Honneth, com o objeto empírico da CNV. Utilizando a discussão de semântica coletiva que fundamenta o processo da luta por reconhecimento, refletimos sobre a formação de sentidos acerca dos centros clandestinos da ditadura a partir da cobertura jornalística dada à divulgação dos resultados preliminares da pesquisa desenvolvida pela Comissão Nacional da Verdade.

Para desenvolver a análise foi realizada uma coleta das notícias veiculadas em jornais impressos, revistas e telejornais durante o período de 7 de abril de 2014 (data de apresentação do relatório) até o final de semana seguinte à divulgação do relatório (dia 13 de abril de 2014). Nesse material identificamos as questões recorrentes tematizadas na mídia e que contribuem para reforçar e ocultar determinados sentidos da luta em tela.

 

Palavras-chave: Cobertura Midiática. Comissão Nacional da Verdade. Teoria do Reconhecimento.

 

 

Autora: PIMENTEL, Gabriella Hauber (UFMG).

Título: A DINÂMICA DE VISIBILIDADE, INVISIBILIDADE E ESTEREÓTIPO NOS MEDIA: A CONSTRUÇÃO DA REPRESENTAÇÃO SIMBÓLICA DE ADOLESCENTES AUTORES DE ATO INFRACIONAL

 

RESUMO

 

O presente artigo tem como objetivo discutir o papel dos media enquanto espaços de visibilidade, invisibilidade e de produção e circulação de representação simbólica e estereótipos. Para isso, faremos uma contextualização do papel ambivalente dos media, sobretudo os de massa, para a deliberação pública e para as conversações cotidianas, partindo, entre outros, dos estudos de Jürgen Habermas e Jane Mansbrigde. Também farão parte do quadro teórico de referência deste artigo os conceitos de representação simbólica e estereótipo, tomando como base o pensamento de Stuart Hall. Partimos do pressuposto de que o jogo que os media estabelecem entre visibilidade e invisibilidade e o enquadramento que se utiliza para expor determinados fatos contribuem para a construção de representações simbólicas de determinados grupos da sociedade, que podem levar, inclusive, a exclusões. A discussão se dará a partir de um caso empírico: a representação simbólica dos adolescentes autores de atos infracionais, construída com a contribuição de três dos principais jornais impressos mineiros: Estado de Minas, Hoje em Dia e O Tempo. Para a análise, foram coletadas todas as matérias dos três jornais impressos que de alguma forma abordavam adolescentes – de maneira geral, sem qualquer tipo de recorte por idade, classe social, raça ou outros. O período escolhido para a coleta compreende os meses de fevereiro a junho de 2013 – em abril desse mesmo ano, um adolescente assassinou o jovem Victor Hugo Deppman, de 19 anos, para roubar um celular, em São Paulo, trazendo novamente a discussão da redução da maioridade penal e o envolvimento de adolescentes com o “crime”. ­A análise do material coletado foi realizada de forma quantitativa, contabilizando o número de matérias relacionadas a atos infracionais que foram publicadas em cada mês, separando também quais discutiam medidas socioeducativas e redução da maioridade penal; e de forma qualitativa, debruçando-se sobre cada matéria e identificando quais características foram associadas aos adolescentes autores de atos infracionais. A análise e a classificação das matérias foram feitas dando ênfase às ideias sugeridas pelos títulos, tendo em vista que são eles um dos principais responsáveis por atrair a atenção dos leitores, e pela forma com que a narrativa foi construída e as fontes utilizadas.

Palavras-chave: Representação simbólica. Media. Adolescentes autores de atos infracionais

 

 

Autora: PINTO, Maria Aparecida (UFMG).

Título: O PARADIGMA RELACIONAL DA COMUNICAÇÃO: DIÁLOGOS COM O JORNALISMO DE CELEBRIDADES NO DESENHO OS PADRINHOS MÁGICOS

 

RESUMO

 

A comunicação é prática social que se constitui na interação entre os sujeitos no exercício da linguagem. Não se trata de transmissões de significados, mas de constituição e produção de sentidos que se tornam possíveis na interação. Nesta perspectiva, adota-se o paradigma relacional da comunicação como forma de analisar a construção do jornalismo de celebridades como fonte de problematizações acerca do modo como a especialidade mobiliza qualidades no imaginário que remete à prática. No artigo, trabalha-se o paradigma relacional e a construção de objetos de análise para desenvolver-se pesquisa em torno do jornalismo de celebridades por meio de duas enunciações da personagem Hart do desenho animado Os Padrinhos Mágicos no episódio Anti Poof (8ª temporada). Hart é telejornalista de celebridades e apresenta-se como objeto empírico acerca do qual são tecidas indagações sobre o tipo de leitura que constitui a especialidade noticiosa de forma crítica. Aborda-se como a personagem coloca-se como objeto de si questionando as qualidades de um imaginário sobre o que é o jornalismo de celebridades e como a jornalista realiza o processo de reflexão a partir da praxiologia e do modelo relacional da comunicação trabalhados por meio de França (2003) e Quéré (1991). A partir de Mead (1967) e França (2008) pode-se pensar o colocar-se como objeto de si no processo da inteligência reflexiva. As idiossincrasias das produções seriadas de animação são abordadas, no estudo, por meio de Nesteriuk (2011), que as considera como metáforas da realidade. O autor é trabalhado em diálogo com Dewey (1980) que ao dizer do “criticismo da vida” desenvolve como produções artísticas e de entretimento constituem-se como espaço para o estudo dos significados do social assim como os objetos da Comunicação são meios e fins de significados. O jornalismo de celebridades é analisado enquanto papel social instituído e legitimado por um discurso da prática e da instituição jornalística, mas que se encontra em permanente tensão entre atualidade e historicidade, considerando-se a abordagem de Goffman (2002; 2010) de comportamento social. No trabalho, compreende-se a comunicação como forma de olhar analiticamente para a sociedade uma vez que a comunicação, possibilitada por meio da interação, é o modo de produção cultural fundado na linguagem.

 

Palavras-chave: Paradigma relacional da comunicação. Jornalismo de celebridades. Desenho animado.

 

 

GT Dispositivos e Textualidas Midiáticas

 

 

Autor: ALVES, Igor Lage Araújo (UFMG).

Título: O NARRADOR-REPÓRTER E SUA RETÓRICA TESTEMUNHAL REFLEXÕES SOBRE PRIMEIRA PESSOA E TESTEMUNHO JORNALÍSTICO

 

RESUMO

 

A associação dos termos “testemunho” e “testemunha” ao campo do jornalismo se tornou exercício recorrente tanto na rotina das práticas produtivas das mídias quanto na esfera acadêmica. Dizer que o repórter foi testemunha dos fatos ou convocar um terceiro como fonte para dar um testemunho sobre determinado tema ou acontecimento são ideias que parecem já estar internalizadas ao que se entende socialmente como jornalismo. Porém, historicamente, as discussões acerca dessas duas palavras apontam para uma série de problemáticas que podem nos ajudar a pensar o próprio fazer jornalístico, em suas diferentes modalidades.

 

Neste trabalho, propomos uma reflexão acerca de narrativas em que o narrador-repórter reivindica para si uma condição de testemunha, de modo a legitimar um lugar de fala passível de ser acreditado e reconhecido como referente à determinada realidade social. Para isso, partimos das discussões empreendidas pelo historiador François Hartog, que encontra na obra Histórias, escrita por Heródoto e publicada por volta de V a.C., um primeiro traço da retórica testemunhal como elemento de legitimação de um relato. Sendo o narrador herodotiano fundado nas marcas enunciativas do “eu vi” e do “eu ouvi”, promovemos sua aproximação com o narrador em primeira pessoa do jornalismo, de modo a identificar possíveis semelhanças entre a argumentação desenvolvida por ambos para legitimar seus respectivos discursos. Em seguida, saltamos no tempo para investigar a situação do testemunho hoje, momento no qual ele volta a ser abraçado pela disciplina historiográfica como importante fonte de verdade, depois de séculos sendo dispensado. A partir das críticas promovidas por Agamben, Ricoeur, Sarlo e Seligmann-Silva, analisamos quais as relações possíveis entre a testemunha da Shoah e o narrador em primeira pessoa das reportagens contemporâneas, especialmente no que se refere aos processos de conferir credibilidade à narrativa. Por fim, selecionamos algumas reportagens publicadas recentemente para analisar os modos pelos quais o narrador em primeira pessoa articula (ou não) uma retórica testemunhal para legitimar um lugar de fala.

Palavras-chave: Jornalismo. Primeira pessoa. Testemunho.

 

 

Autora: ALVES, Marcelle Louise Pereira (UFMG).

Título: A REDE MIGUEL NICOLELIS SOB A PERSPECTIVA DA TEORIA ATOR REDE

 

RESUMO

 

A sociedade contemporânea está imersa no ambiente midiático, em que a mídia está sempre presente e em que todos são produtores de conteúdo. (DEUZE, 2012) Com a crescente importância da mídia para a formação da opinião pública e a escassez de recursos destinados à ciência, e, portanto, a dependência da aceitação pública para que cientistas tenham algum tipo de retorno, esta precisa ser cada vez mais midiática. (WEINGART, 1998 apud HJAVARD, 2012) O presente artigo propõe discutir a divulgação científica neste cenário, a partir da observação da página do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis no Facebook. O que aqui se denomina Rede Miguel Nicolelis designa energias, movimentos e especificidades presentes nos relatos contidos no perfil pessoal do cientista, que aparece como porta-voz de seu grupo de pesquisa. A rede não designa o que é mapeado, mas como é mapeado; é o traço deixado pelo agente ao se movimentar; os fluxos de translações entre os atores (LATOUR, 2012); é também uma caixa preta, quando seus elementos são considerados um só (LEMOS, 2013). Procura-se compreender como estão demarcadas as relações em rede, pela ação dos diversos atores humanos e não humanos. A página é a caixa preta que Nicolelis abre e que nos aventuramos a espiar na tentativa de compreender o agenciamento híbrido em que se dão as relações entre os diversos atores envolvidos neste processo, diante da controvérsia instaurada na abertura da Copa. Para tanto, partimos da perspectiva teórico-metodológica da Teoria Ator-Rede (CALLON, 2008; LATOUR, 2012) para compreensão das relações e conexões estabelecidas na rede em questão. Dessa forma, busca-se observar de que maneira os actantes se estabelecem na rede, como o cientista articula estes atores e torna-se porta voz deste grupo, e o que esta agência instaura ou “faz fazer”. Conclui-se que o porta voz cumpre um papel importante no processo de agenciamento em questão, na medida em que consegue, por meio da articulação das diferentes agências, divulgar a pesquisa e alcançar o público. Ressalta-se o caráter híbrido das agências com semelhante relevância. Os atores envolvidos no projeto BRA-Santos Dumont 1, especificamente aqueles que a página do neurocientista no Facebook agencia, estão a todo o momento mobilizando a sua rede (a Rede Miguel Nicolelis) para fazer com que o trabalho seja reconhecido e para afirmar sua relevância.

 

Palavras-chave: Divulgação científica. Midiatização. Teoria Ator-Rede.

 

 

Autores: ANTUNES, Elton; GÓES, José Cristian (UFMG).

Título: DISPOSITIVOS IDENTITÁRIO E JORNALÍSTICO DO RECONHECIMENTO DO NÃO-DITO A POSSIBILIDADES DE FISSURAS

 

RESUMO

 

A partir do conceito de dispositivo, principalmente em Foucault (1979, 1988) e em Deleuze (1990), propomos realizar neste artigo três movimentos interseccionados: 1) aproximar as principais ideias de dispositivo com o processo de construção das identidades coletivas, em especial as nacionais, descortinando um possível dispositivo identitário. Quando tratamos de identidades, utilizamos Hall (2000, 2006), Bauman (2005) e Sodré (1999); 2) observar como o dispositivo identitário atravessa e é atravessado pelo dispositivo jornalístico. Nesse momento, são fundamentais as formulações de Mouillaud (1997), Braga (2011), Antunes e Vaz (2006) e Bruck (2012); e 3) perceber que nas curvas de enunciação e de visibilidade que compõem o dispositivo existem não-ditos produtores de tensões e que, no caso das identidades, podem fomentar linhas de fuga e de fissura em um dado ambiente de disputas identitárias. De forma empírica analisamos as notícias sobre o sorteio de grupos de seleções de futebol para a Copa do Mundo-2014, a partir da edição de 25 de novembro de 2013 do jornal Folha de S. Paulo, que no título da página de esportes informou: “Fernanda Lima vai apresentar sorteio de grupos da Copa-2014”. A apresentadora Fernanda Lima e seu marido seriam mestres de cerimônia do sorteio. No evento, transmitido para 193 países, o casal era o cartão de visita dos brasileiros para o mundo. Ao se observar o contexto dessa publicação, percebemos a existência de elementos não-ditos, mas que logo ganharam luzes enunciativas críticas, especialmente pela internet e que, atravessaram o próprio ambiente jornalístico da transmissão inicial e de outros. A notícia em questão não traz nenhuma informação sobre uma possível rejeição do casal de atores negros para apresentar esse mesmo evento. No entanto, de alguma maneira, o texto do jornal, aliado a uma série de controvérsias públicas sobre a Copa do Mundo, fomentou, mas não só ele, uma enunciação de fuga, quando se desvendou uma das camadas não visíveis na notícia. As informações sobre o sorteio, agora com o racismo como um componente atravessado ao acontecimento, ganharam repercussão intermidiática antes, durante e depois desse evento, gerando indícios de fissuras identitárias. Metodologicamente, utilizamos uma combinação de Análise de Conteúdo e Discurso para argumentar sobre o não-dito, associando-o ao silêncio nas formações discursivas.

 

Palavras-chave: Dispositivo. Identidade. Jornalismo.

 

 

Autores: ARCE, Tacyana; SALGADO, Tiago Barcelos Pereira (UFMG).

Título: POR UMA COMUNICAÇÃO NÃO-HUMANA OU NÃO APENAS HUMANA

 

RESUMO

 

O artigo procura problematizar a noção de comunicação social a partir de dois aspectos implicados na própria nomenclatura. O primeiro deles se volta para o termo “comunicação”, tratado preferencial e tradicionalmente pelos estudos comunicacionais, principalmente aqueles fundamentados no Interacionismo Simbólico e no Pragmatismo, enquanto interação simbólica entre humanos, como percebemos nos trabalhos de George Herbet Mead (1934) – ainda que com uma certa relativização – e Herbert Blumer (1980). O segundo aspecto atenta para o termo “social”, como apresentado preferencialmente por Émile Durkheim (1978). Ao considerarmos uma sociologia das associações, tal como proposta por Bruno Latour (2005) ao recuperar Gabriel Tarde (2007), em detrimento de uma sociologia do social, da qual os teóricos mencionados anteriormente nos parecem fazer parte, procuramos tensionar a dimensão humana fortemente atribuída à comunicação pelos estudos comunicacionais. Para tanto, recorremos ao conceito de ação apresentado Latour (1991, 1994, 2005) e o de social e sociedade tratados por Gabriel Tarde (2007) para ampliarmos as possibilidades de compreensão da comunicação e do social. O nosso argumento reside na afirmação de que a comunicação é social e pode ser entendida enquanto uma ação híbrida, que associa humanos e não-humanos. Neste sentido, concordamos com Latour (1992) no que tange à sua reivindicação pelas massas perdidas da sociologia, e podemos afirmar também as da comunicação, qual sejam as dos não-humanos. Desse modo, nosso esforço é destacar as contribuições que a Teoria Ator-Rede (TAR), cujo um dos principais expoentes é Bruno Latour, oferece para refletirmos sobre os processos comunicacionais sem nos restringir ao aspecto humano – priorizado pela vertente interacionista – e ao mesmo tempo, sem abandoná-lo. Trata-se, portanto, de questionarmos: ao olhar para os fenômenos comunicacionais, o que implica considerar quando retomamos os não-humanos? Como eles integram as práticas comunicativas e os processos interacionais?

 

Palavras-chave: Comunicação social. Não-humanos. Teoria Ator-Rede.

 

 

Autoras: COLODETI, Elisangela; OLIVEIRA, Eliziane Silva (PUC Minas).

Título: VOZES DAS RUAS: O QUE DIZ A “NOVA CLASSE MÉDIA BRASILEIRA” NA COBERTURA DAS MANIFESTAÇÕES POPULARES DE 2013 E 2014

 

RESUMO

O poder necessita, além de estruturas burocráticas, de estratégias simbólicas de legitimação. No meio acadêmico, pensadores como Foucault, Deleuze e Gramsci trouxeram inúmeras contribuições sobre os motivos e mecanismos que tornam possíveis a aceitação e a consolidação social de determinadas ideias.

Na sociedade midiatizada contemporânea, conforme autores como José Luis Braga e Muniz Sodré, os aparatos midiáticos podem ser considerados os mais importantes meios existentes de difusão de ideias e de dominação cultural e simbólica. Neste contexto, a imprensa, por meio dos discursos jornalísticos que coloca em circulação, contribui de modo crucial para essa construção.

Para o sociólogo Jessé Souza, “como resultado de intenso trabalho de legitimação, a visão de mundo do novo capitalismo financeiro é assimilada por amplos setores sociais em todas as classes”. Segundo ele, no caso do Brasil, a disseminação de valores a respeito da classe média também serve como pano de fundo a essa lógica persuasiva capitalista.

A proposta deste artigo é identificar e analisar na cobertura das manifestações populares de junho de 2013 e de 2014, no Brasil, no jornal Folha de São Paulo, traços e entrecruzamentos destas vertentes, que levam a encontrar na utilização das “vozes das ruas”, a fala, com viés testemunhal, da idealizada nova classe média trabalhadora brasileira como legitimadora do discurso capitalista financeiro.

Para tal análise, além dos estudos de Jessé Souza, José Luis Braga e Muniz Sodré, citados anteriormente, recorreremos às análises de Beatriz Sarlo, sobre o movimento de revalorização da voz do “eu” em narrativas do real, e às de Patrick Charaudeau e Dominique Maingueneau, no que diz respeito à análise do discurso.

A escolha da Folha de São Paulo como corpus deste estudo foi feita com base no fato de as manifestações terem começado na capital paulista e de este ser este um dos impressos regionais de maior circulação no país.

 

Palavras-chave: Narrativa jornalística; Subjetividade; Nova classe trabalhadora; Mecanismos simbólicos de poder.

 

 

Autora: GLÓRIA, Luíza (UFMG).

Título: O DISPOSITIVO ‘CORDEL UMA LITERATURA INTERACIONAL

 

RESUMO

 

Este trabalho pretende compreender a literatura de cordel enquanto fenômeno comunicacional. Embora o termo “cordel” englobe diferentes formatos (o gênero literário, a performance, o canto, o livreto entre outras), o foco do trabalho são os folhetos impressos distribuídos e vendidos principalmente na região Nordeste brasileira. De origem europeia, o “cordel” se enraizou brasileiro em sua linguagem, suas técnicas, suas temáticas e seus autores. Embora comporte grande diversidade de temas e meios de produção, o cordel apresenta características básicas, como o texto em versos e rimas, presença da xilogravura na capa e tamanho, formato e número de páginas padronizados.

A análise do objeto se dá a partir do conceito de dispositivo, passando primeiramente pela origem desses estudos com Michel Foucault e as leituras de Deleuze e Agamben. Num segundo momento, o trajeto se dá pelas apropriações dos estudos comunicacionais com Maurice Mouillaud, Elton Antunes e Paulo B. Vaz, e com ênfase na noção de dispositivo interacional, termo proposto por José Luis Braga. Com a perspectiva paradigmática do termo apresentado por Braga, nos voltamos aos traços comunicacionais que o gênero literário carrega para observar como é conformada aí uma comunicabilidade. Interessa-nos aqui perceber as relações em diálogo e em tensionamento presentes nos folhetos e como essas relações configuram o que denominamos de fenômeno comunicacional.

Chamamos atenção ainda para a transversalidade em que está inserido nosso objeto, o folheto de cordel, que também é, ou pode vir a ser, apropriado nos estudos de diversas outras áreas do conhecimento, como as Letras, as Belas Artes, a História entre outras. É interessante observar que as “narrativas volantes” permitem uma variedade de construções empírico-reflexivas possíveis, e, consideramos o olhar comunicacional uma grande contribuição para esses estudos.

 

Palavras-chave: literatura de cordel; dispositivo; dispositivo interacional.

 

 

Autora: GONÇALVES, Joanicy Maria Brito (PUC Minas).

Título: A VOZ DAS RUAS RETRATADA PELA REVISTA ÉPOCA UMA VERSÃO DO BRASIL DE JUNHO DE 2013

 

RESUMO

 

“O Brasil nunca vira algo parecido capaz de empolgar, emocionar e assustar quem passava pelas ruas ou acompanhava os acontecimentos de casa”. Os protestos que começaram pela revogação do aumento das tarifas de transporte público, “fizeram brotar todo tipo de insatisfação e revolta com o Brasil atual”. “As razões, exibidas em cartazes cuidadosamente elaborados, eram muitas, variadas, sem muitas tintas ideológicas ou cores partidárias”. As citações da página 34 da revista Época, de 24/06/2013, intitulada “Pátria amada, Brasil – onde vai parar a maior revolta popular da democracia brasileira?”, descrevem um dos variados ângulos de um complexo momento histórico que o país viveu.

Com o objetivo de refletir sobre o papel dos media na construção dos acontecimentos, o artigo proposto toma como objeto empírico as falas de manifestantes e de especialistas, bem como os textos de jornalistas e colunistas que, articulados na edição da Época citada acima, compõem uma visão do que foram as manifestações de junho.

Duas premissas teóricas de base norteiam a abordagem do objeto empírico. Uma é a noção de acontecimento, visto por Louis Quéré como um fenômeno de ordem hermenêutica, que implica em experiência, em sujeitos afetados que reagem interpretando e reconfigurando o acontecimento. Nesse sentido, a Época é vista como um agente de mudança da realidade, não apenas relatora de fatos, tanto quanto os demais atores sociais entrevistados pelos seus jornalistas. A outra é a de que o texto jornalístico oferecerá sempre uma versão parcial dos fenômenos, construída a partir das escolhas feitas pelo veículo de comunicação em interação com outros agentes sociais e variáveis contextuais. Como explicam Gonzaga Motta e Emerson Fraga: “A narrativa que o jornalismo oferece à audiência não é toda a realidade atual, nem a verdade definitiva, mas uma versão construída através da negociação de sentidos, filtros culturais, comerciais e técnicos”.

Este artigo discutirá questões relativas à construção da versão dos media do acontecimento. Para isso, utilizaremos técnicas de análise de discurso comparando a voz da revista com a das fontes registradas em uma edição da Época sobre as manifestações. Em diálogo ainda com Vera França sobre o que o acontecimento faz falar, com Márcia Benetti sobre o discurso como fruto da interação entre sujeitos e com outros autores, pretendemos problematizar como os media constroem acontecimentos, expondo e ocultando sentidos e vozes no texto jornalístico.

 

Palavras-chave: Acontecimento. Narrativa jornalística. Negociação de sentidos.

 

 

Autora: JURNO, Amanda Chevtchouk (UFMG).

Título: NOTÍCIA EM REDE: UMA ANÁLISE DA REPERCUSSÃO SOBRE O RESULTADO DA COPA DO MUNDO 2014 NA COREIA DO NORTE

 

RESUMO

 

Estudar a comunicação é estudar as relações que se dão em cada processo comunicacional, assim como os diversos fatores que influenciam e constituem esse processo. O presente trabalho propõe um olhar para o fenômeno comunicacional à luz da junção de duas bases teóricas: a Teoria Ator-Rede (TAR), entendida principalmente a partir do livro Reagregando o Social de Bruno Latour e o método genealógico de Foucault e seu conceito de dispositivo. Consideramos que a TAR pode ser uma ferramenta importante para nos ajudar a pensar a dinâmica comunicacional, já que parte do princípio da existência de redes dinâmicas, formadas por uma diversidade de atores (humanos e não-humanos) e que constituem a sociedade. O método genealógico de Foucault e seu conceito de dispositivo também podem nos ajudar a pensar os processos comunicacionais. As linhas de força existentes em cada produto, os diversos interesses se tencionando e os agentes lutando em prol dos seus objetivos são possibilidades de análise iluminadas por essa metodologia. Consideramos que a junção dessas duas formas de olhar para os eventos jornalísticos pode ser fundamental para entendermos o jornalismo contemporâneo, sua produção e circulação. Nesse trabalho propomos a combinação dessas abordagens para entender como se deu a circulação da falsa notícia de que a Coréia do Norte teria manipulado o resultado da Copa do Mundo 2014 para seus cidadãos, fazendo-os acreditar que o país havia sido campeão. O vídeo, produzido pelo blogueiro Maurício Cid, responsável pelo blog de humor “Não Salvo”, obteve 8 milhões de visualizações em apenas três dias e foi replicado por milhares de usuários nas redes sociais. Além disso, a mídia institucionalizada também divulgou a notícia como verdadeira em vários países, inclusive no Brasil. A proposta do trabalho é, observando os diversos atores que constituem essa rede, tentar entender como se dá o processo de circulação das notícias no ambiente digital e como cada um desses pontos da rede é responsável pelo resultado final.

 

Palavras-chave: circulação jornalística, dispositivo, genealogia, Teoria Ator-Rede, Copa do Mundo 2014.

 

Autores: OLIVEIRA, Jéssica Gomes de; RANGEL, Jair Guimarães (PUC Minas).

Título: OS PROTESTOS DE JUNHO DE 2013 E A COBERTURA DA MÍDIA TRADICIONAL

 

RESUMO

 

O artigo tem como objetivo fazer uma análise dos protestos que ocorreram no país em junho de 2013 sob a perspectiva da cobertura feita pela mídia tradicional. Para isso, uma descrição do enquadramento noticioso feito pela imprensa e de suas implicações para as manifestações.

 

Uma das principais discussões que cercam o jornalismo está no relato fidedigno da cena primária. Durante os protestos de junho de 2013 a mídia tradicional apresentou dificuldades para relatar os acontecimentos, mudando radicalmente de posicionamento durante a cobertura. Num primeiro momento, quando os protestos se concentravam apenas na cidade de São Paulo, a imprensa condenou os manifestantes e não reconheceu a complexidade e importância do fenômeno. À medida que o movimento foi aumentando e se espalhando pelo país a cobertura também foi ampliada e os protestos passaram a ser tratados de forma mais imparcial. O artigo propõe uma reflexão sobre como a mídia tradicional lida com fenômenos inéditos e de grande impacto social.

 

O artigo também aborda o papel desempenhado pelas mídias sociais online durante os protestos que emergiram como importantes dispositivos de compartilhamento de informação. Durante os protestos milhares de jovens rejeitaram a cobertura feita pela mídia tradicional. Repórteres de grandes emissoras de televisão chegaram a ser hostilizados durante as coberturas, sendo obrigados a utilizar microfones sem identificação e a fazer imagens com celulares e smartphones para conseguir se aproximar dos fatos. Em contrapartida, os mesmos jovens produziram e compartilharam conteúdo sobre as manifestações nas mídias sociais online. Realizaram-se fotos, vídeos e compartilhavam informações em tempo real sobre os protestos, o que gerava a sensação de que estavam ajudando a construir e a disseminar a informação, fazendo parte do processo comunicacional.

 

Por fim, é feita uma breve reflexão sobre a cobertura alternativa produzida durante os protestos por coletivos como a Mídia Ninja e seu impacto para a mídia tradicional.

 

A metodologia do artigo consiste num estudo exploratório das questões propostas, tendo como base as manifestações de junho de 2013.

 

Palavras-chave: Mídia tradicional. Protestos. Mídias sociais online.

 

 

Autora: PINTO, Giselle Aparecida de Oliveira (UFMG).

Título: PROXIMIDADES E DIFERENÇAS ENTRE TAR E ARS UMA REFLEXÃO SOBRE UMA SOCIOLOGIA DA MOBILIDADE E UM MÉTODO ESTRUTURALISTA

 

RESUMO

 

Teorias e metodologias que contribuam para o entendimento dos fenômenos fluidos que acontecem no ambiente virtual têm sido buscadas e desenvolvidas com diferentes focos – sociais, comunicacionais, psicológicos. O intuito parece sempre o de compreender uma nova configuração de mundo e suas novas tecnologias ou como essas novas tecnologias modificaram as velhas configurações do mundo. Nesse artigo tentamos uma reflexão sobre duas abordagens de análise de redes sociais: a Teoria Ator-Rede (TAR) e a metodologia de Análise de Redes Sociais (ARS). Sabemos que as duas abordagens apontam para caminhos opostos, sendo o modo estruturalista da segunda, campo fértil para as críticas apontadas no desenvolvimento da primeira. A insistência, para não dizer teimosia, em falar de duas abordagens a priori contraditórias, reside na proposta inicial que ambas apresentam aos leitores.

A ARS se apresenta como uma metodologia que se aplica ao estudo das relações entre entidades e objetos de qualquer natureza com foco nas ligações dos atores e seus laços, ou seja, em suas interações, e não nas características dos seus interlocutores. A TAR, por sua vez, busca identificar as associações entre atores destacando as redes que se formam com a circulação da ação entre eles. “A TAR nos ajuda a compreender as relações que se estabelecem e que criam a sociedade” (Lemos, 2013, p.25). Assim, grosso modo, a proposta inicial de ambas nos parece ser observar como se dão as relações entre os atores de uma rede e o que surge a partir de então. Se as semelhanças parecem parar por aí, visto que a própria definição de rede será diferente em uma e em outra, o que buscamos aqui é identificar os pontos de convergência e divergência entre elas e refletir sobre a possibilidade de um método tido como estruturalista ter ou não contribuições a dar a uma teoria que se foca na mobilidade das associações, mas que também admite uma estabilização em caixas-pretas, ainda que temporária. A ARS por sua vez, ainda que tenda a analisar redes estruturais, também admite a mobilidade dos atores e formações de estruturas temporárias que também se modificam de acordo com a reconfiguração dos seus atores (Molina, 2004). O objetivo da ARS é analisar os modelos de interações sociais presentes em uma dada rede, onde cada relação é uma rede diferente e o os atores não têm posições rigidamente fixas, já que podem se alterar em uma nova perspectiva de análise, reconfigurando as relações dentro de uma rede.

 

Palavras-chave: Teoria Ator-Rede; Análise de Rede Social; Estudos redes sociais.

 

 

Autora: SIQUEIRA, Taísa (PUC Minas).

Título: O LIVRO INFANTIL CLÁSSICO COMO DISPOSITIVO DE INTERAÇÃO

 

RESUMO

 

A relação entre adultos e crianças passa por diversas mediações e episódios interacionais, entre os quais nos interessa os relacionados à interação com os livros infantis clássicos, comumente conhecidos como contos de fadas ou contos maravilhosos de Perrault, Grimm, Andersen ou as fábulas de La Fontain. Tais obras serão perspectivadas como dispositivos de interação entre falantes de gerações diferentes, na intenção de discutir e compreender um pouco mais acerca da instauração de experiências estéticas e subjetivas destes através do dispositivo. A princípio, a análise irá delimitar com maior rigor o conceito de dispositivo que se apoia em discussões levantadas por José Luiz Braga (2011), Mouillaud (2002) e Otávio José Klein (2007) entre outros, a fim de entender como os clássicos da literatura infantil podem ser percebidos como dispositivos de interação, e como a interação com estes possibilita inscrições de natureza culturais diversas que variam de acordo com seus usuários/leitores, crianças ou adultos, e também com o tempo histórico, com a realidade cultural e social no qual o contato com este dispositivo ocorre. Para melhor visualizar a diversidade de acoplamentos estruturais que envolvem a interação com o dispositivo e também as variações no próprio dispositivo ao longo do tempo, serão tomados para análise dois títulos referentes a uma mesma obra clássica: Chapeuzinho vermelho, um na sua inscrição original, de Perrault, e outro contemporâneo baseado no mesmo conto. Para sustentar teoricamente a análise serão tomados como bases conceitos, noções e interpretações de Walter Benjamin (2002), Robert Darton (1988) e Nelly Coelho (2010) que fomentarão a discussão acerca da relevância do dispositivo livro infantil clássico na sociedade contemporânea midiatizada, oportunizando, ainda o delinear de uma discussão a respeito dos modos de percepção e apropriação das narrativas mencionadas por gerações distintas, adultos e crianças, e do tensionamento entre essas gerações observado por um viés comunicacional e relacional.

 

Palavras-chave: Dispositivo. Livro infantil clássico. Mediação.

 

 

GT de Estéticas, Imagens e Mediações

 

 

Autor: ALVIM, Marcelo Hamdan (PUC Minas).

Título: SEMIÓTICA E PSICANÁLISE: A REPRESENTAÇÃO DO SELF NAS REDES SOCIAIS E MÍDIAS DIGITAIS

 

Resumo

 

Este artigo pretende conduzir uma análise de questões miméticas em redes sociais e mídias digitais sob os prismas da Semiótica e da Psicanálise, com o intuito de identificar algumas possíveis relações entre os dois assuntos, bem como possíveis estratégias comunicacionais que podem advir de tal exercício. Para a análise e observação das visões propostas, vários selfies (termo usado para se referir a uma fotografia tirada por uma pessoa dela mesma, normalmente com um smartphone e compartilhada em redes sociais, e que, no caso deste estudo, fotografias destas mesmas pessoas selecionadas por elas mesmas para compartilhamento) foram capturados com prints de um aplicativo de encontros denominado Tinder, que promove conversa entre usuários que se mostrem interessados mutuamente. Estes selfies foram então analisados sob as lentes psicanalítica e semiótica, análise esta que buscou encontrar uma interface entre os campos de estudo e ver onde eles mais podem se assemelhar e se distanciar. Com o avançar deste estudo, buscou-se observar como as pessoas se retratam, ou se representam, na esfera virtual. Buscou-se também observar identificar aspectos de assemelhamento e diferenciação entre elas. O desejo das pessoas de serem vistas, notadas e celebradas foi constatado como presumido mas, apesar de tal desejo, a ação em geral foi na direção de mistura, de tornarem-se o mais indistinguíves quanto possível. Sob a visão lacaniana da constituição do sujeito, isso pode significar uma nova forma de legitimar a prórpia existência de uma pessoa: os vários “nascimentos” que esta pessoa precisa ter dentro de diferentes aspectos da realidade, ou em várias realidades. No caso do presente estudo, o aspecto da realidade virtual, online, das redes sociais e mídias digitais. Após algumas primeiras observações, especulou-se que os tão chamados selfies, que a princípio receberam esse nome para significar uma representação de indivíduos de forma reflexiva, talvez pudessem agir de forma contrária a uma exibição do ‘si mesmo’ e de fato esconder o sujeito ali fotografado.

 

Palavras-chave: semiótica, psicanálise, redes sociais.

 

 

Autor: DRUMOND; Rafael (PUC Minas).

Título: QUANDO A RECEPÇÃO ALCANÇA

 

RESUMO

 

Proponho neste trabalho discutir a atualidade e a importância dos estudos de recepção para a pesquisa em Comunicação Social no Brasil. Para tanto, busco entender o redesenho da recepção em virtude das novas práticas de interação, particularmente no que se refere à mediação estrutural da tecnicidade enquanto agenciadora de outras formas de recepção midiática. Entretanto, interponho que, diante desse contexto, não raro, deparamo-nos com assertivas que, ao frisarem o ganho participativo implicado às novas tecnologias, acabam por desconsiderar o sentido político-epistemológico dos estudos de recepção, como se estes tivessem sua pertinência diminuída no atual contexto acadêmico e sociomidiático. Em certa medida, a chamada “liberação do pólo da recepção” parece ter liberado o próprio campo de lidar com questões que, historicamente, perfizeram as primeiras décadas dos estudos em Comunicação no Brasil e na América Latina: no caso, questões relativas à construção histórico-diacrônica das relações de poder, com foco sobre abordagens que envolvam sujeitos empíricos, suas diferentes classes sociais e suas profundas desigualdades, e ainda, temas mais próprios às culturas populares e aos processos de legitimação de toda forma de hegemonia. Nesse contexto de análise, defendo que a pesquisa sobre a recepção pode dar conta das complexidades que atravessam nossas práticas comunicativas, tendo em vista sua capacidade de acompanhar as novas consciências despertadas pela contemporaneidade do mundo, sem perder de vista a persistência mutante das formas culturais ancoradas no tempo histórico. Deste percurso, concluo que as dinâmicas recepcionais devem ser desentranhadas das perspectivas da interatividade (dominante nos protocolos, cada vez mais crescentes, de pesquisa de recepção em rede), para que não percamos de vista as assimetrias que, muitas vezes, os processos interativos apagam a partir do interdiscurso e das agências veladas. Meu referencial teórico estrutura-se sobre as perspectivas de Jésus Martín-Barbero, relacionando-se, de forma mais ampla, à matriz epistemológica dos estudos culturais, notadamente, os latino-americanos. Recorro também à metapesquisa coordenada por Nilda Jacks sobre as pesquisas de recepção no Brasil. Além disso, tabulo um diálogo crítico com as perspectivas interacionais dos teóricos da midiatização, particularmente os trabalhos de José Luiz Braga e Antônio Fausto Neto.

 

Palavras-chave: Campo Comunicacional 1. Estatuto do Receptor 2. Estudos de Recepção 3.

 

 

Autora: FAGIOLI, Julia (UFMG).

Título: CHRIS MARKER E O CINEMA DE CONTRA-INFORMAÇÃO UMA ANÁLISE DO FILME “ATÉ LOGO, EU ESPERO”

 

RESUMO

 

O trabalho proposto tem como objetivo analisar o filme “Até logo, eu espero” (À bientôt, j’espère, Chris Marker, 1967), de modo a perceber as relações entre o caráter militante e os aspectos formais do filme. Trata-se de um filme de contra-informação realizado a pedido de operários em greve. A história do cinema foi redigida predominantemente do ponto de vista da indústria. De acordo com Nicole Brenez (2006), quanto mais obscuros os filmes, mais distantes estão do discurso dominante. Isso porque o cinema de contra-informação é aquele que se distancia de todos os poderes: político, da mídia, econômico; logo, recebe menos visibilidade. Um dos principais nomes no cinema de contra-informação é Chris Marker, que tem como preocupação as lutas de classe e as pequenas narrativas – vidas que são afetadas pelos acontecimentos históricos. De acordo com Catherine Lupton (2005), os filmes militantes de Marker têm como pano de fundo uma curiosidade sobre como homens e mulheres se percebem em uma sociedade e como agem em relação a isso. O objetivo do diretor era dar voz às pessoas sem intermediários, daí sua contraposição aos discursos midiáticos. Em seus escritos para os Cahiers du Cinéma, Serge Daney (2007) classifica o cinema militante como um “cinema de intervenção, de agitação, de testemunho”. O autor observa o fato de que este cinema carrega um fardo que é a relevância política do tema que trata. O cinema militante não cumpre apenas uma função social, há também uma atenção à forma, uma dimensão criativa que contribui para um pensamento sobre o próprio cinema. Nicole Brenez reitera a relação entre o cinema engajado e as questões cinematográficas: trata-se de um cinema que lida com história e memória, e que abrange um campo de invenção rico, complexo e avançado. Para a autora, o cinema de intervenção formula questões cinematográficas fundamentais, tais como: “por que fazer uma imagem, qual e como? (…), como montá-la, em que contexto posicioná-la em perspectiva? A que outras imagens opõe-se ela? Da perspectiva da história, quais são imagens que faltam e quais serão as imagens indispensáveis? A quem dar a palavra, como toma-la se ela nos é recusada? Por que, ou dito de outra maneira, que história desejamos?” (BRENEZ, 2006, p. 40). Assim, o cinema de Chris Marker é fundamental para se pensar o cinema combativo, na medida em que realiza a imagem não autorizada pela história oficial; e reflete sobre qual seria a função das imagens na história.

 

Palavras-chave: Chris Marker, cinema militante, contra-informação.

 

 

Autor: MARTINS, Rafael Barbosa Fialho (UFMG).

Título: QUEM AS VINHETAS DO SBT PENSAM QUE SOMOS? O ESTILO TELEVISIVO COMO ESTRATÉGIA DE COMUNICABILIDADE COM O TELESPECTADOR

 

RESUMO

 

Dentre as emissoras da televisão aberta brasileira, o SBT apresenta uma singular relação de afetividade e engajamento com seu telespectador, que já o sagrou como o canal mais querido e com mais defensores do Brasil. Exemplo disso são os “SBTistas”, como os fãs do canal se autointitulam, que organizam-se em comunidades nas redes sociais e são reconhecidos pela emissora. Contudo tal fidelização, não vista em outras emissoras, nem sempre se traduz em índices de audiência do canal, que oscila entre o 2º e 3º lugar dentre os mais vistos. Mas como a emissora que não é a mais assistida pode ser a mais querida? Essa indagação nos motivou a buscar os possíveis fatores que contribuem para a empatia causada pelo SBT – dimensão a ser trabalhada a partir das vinhetas institucionais, que por excelência constituem a “voz” do canal e expressam seu discurso auto-referencial. Baseando-nos em estudos anteriores (MARTINS; TORRES, 2013), (MARTINS, 2014), neste trabalho, especificamente, buscamos identificar e discutir a estratégia de comunicabilidade que o SBT constrói a partir de suas vinhetas, partindo do pressuposto de que o modo pelo qual o telespectador é representado nas vinhetas do SBT auxilia na identificação e no engajamento do público. Para o estudo, utilizamos o arcabouço teórico-metodológico do estilo televisivo como proposto por Jeremy Butler (2009), que amparando-se em David Bordwell (2008), concebe o estilo televisivo como a utilização sistemática de técnicas de imagem e som – como o cenário, a iluminação, o enquadramento, a trilha sonora, a encenação dos atores e os efeitos especiais – cumprindo funções dentro do texto. No presente estudo, acredita-se que os aspectos sonoro-imagéticos que transmitem as mensagens veiculadas pelas vinhetas agem como estratégias para identificação e fidelização do público do SBT. Utilizamos a metodologia de Butler (2009) passando pela descrição e verificação das funções desempenhadas pelas escolhas estilísticas das peças. O corpus do objeto constitui-se de cinco vinhetas que sintetizam as estratégias de programação e comunicabilidade do canal. As vinhetas foram escolhidas entre aquelas que trazem personagens que representam o telespectador e/ou fazem menção direta a ele, possibilitando uma melhor visualização das estratégias estilísticas – e de comunicabilidade – para sua adesão.

 

Palavras-chave: Estilo televisivo. SBT. Vinheta.

 

 

MINTZ, André (UFMG).

Título: NÓS, QUE VEMOS A IMAGEM, FRONTEIRA E TRÂNSITO ENTRE HUMANOS E MÁQUINAS

 

RESUMO

 

Um dispositivo corriqueiro na web, o chamado CAPTCHA, nos solicita traduzir em texto as letras embaralhadas e distorcidas que nos são apresentadas, com o objetivo de distinguir, dentre os que acessam determinada página, os humanos das máquinas. Trata-se, talvez, de um dos rastros mais cotidianos da presença e da agência das máquinas computacionais de visão que, afiliadas ao contexto mais amplo da inteligência artificial, constituem, hoje, uma das frentes de assimilação das capacidades da máquina àquelas do humano. Com a transposição em andamento da fronteira das línguas naturais que, para Alan Turing, na década de 1950, constituiria o meio pelo qual uma máquina inteligente se comunicaria conosco, enfrenta-se, hoje, o problema da visão e da capacidade interpretativa de imagens por programas computacionais. A entrada das máquinas ao domínio do visual parece ser, assim, um importante elemento da constituição do observador contemporâneo. Partindo da compreensão de Jonathan Crary, que aponta para o duplo sentido da palavra observar – implicando não apenas o ato de ver, mas também a inserção daquele que o faz em um arranjo de prescrições e ordenamentos que informam sua visualidade – buscamos delinear alguns aspectos do observador implicado pelas tecnologias computacionais de visão, com particular interesse pela maneira como se performam, em diferentes contextos, movimentos de purificação e de hibridação entre o humano e a máquina. Mais do que presumir de antemão uma diferença essencial entre duas visualidades, amparamo-nos em autores e autoras como Bruno Latour, Donna Haraway e Lucy Suchman para compreender tanto a necessária interconexão que lhes é constituinte quanto o caráter construído e ficcional de sua separação. Acercamo-nos, portanto, de alguns dos agenciamentos concretos em que se manifestam tais programas de visão computacional atualmente – como os CAPTCHA, o reconhecimento de rostos e os mecanismos de busca de imagens na web – bem como de sua figuração crítica e reflexiva em experiências artísticas e ativistas, a fim de delinear, a partir da configuração e da operação destes dispositivos, alguns dos traços que contribuiriam à conformação do olhar do observador contemporâneo.

 

Palavras-chave: Visão computacional. Visualidade. Imagem.

 

 

Autor: PALMER, Marcos Ubaldo (PUC Minas).

Título: FICÇÃO E NÃO FICÇÃO NO FILME O HOMEM URSO DE HERZOG INTERPOLAÇÃO E INTENCIONALIDADE DOCUMENTARIZANTE DO CINEMA CLÁSSICO

 

RESUMO

 

Este artigo busca refletir sobre a construção da narrativa do filme O Homem Urso (Grizzly man, 2005), de Werner Herzog. Tais reflexões foram ancoradas em autores que trabalham com as relações da ficção e não ficção na cultura midiática. No documentário o diretor apresenta o ambientalista Timothy Treadwell, fundador da Grizzly People e sua experiência inédita – viver junto aos ursos selvagens, no Alasca. O filme, desde o início, aciona para uma leitura documentarizante (ODIN, 2012, p.18-22), de acordo com a organização dos elementos identificados. A construção da narrativa, com base em Comparato (1995), se baseia na estrutura clássica do cinema. O ritmo da história se apoia a partir de três atos: apresentação, confrontação e resolução, de forma equilibrada e crescente, em relação à tensão dramática. O ficcional interpola com o não ficcional, de maneira discreta em grande parte, mas o ordenamento do conteúdo, a seleção e a combinação, denotam controle e impulsionam a apreensão da intencionalidade, da interpretação e criam uma disposição perspectivística (ISER, 2002, p.962). A interpolação ainda se apresenta nas vozes do diretor e do personagem de modo construtivo, segundo Rancière (2010). Os aparatos da filmagem são mostrados ao espectador, quebrando a ilusão de uma comunicação direta, assim como Eduardo Coutinho se deixava aparecer em suas entrevistas, reduzindo o que Figueiredo (2012) denomina de instâncias intermediárias. Se a tela pode ser considerada um espaço análogo ao palco, podemos questionar ainda, certo grau de ficcionalidade no documentário, com a sua narrativa descritiva, impressa nas palavras de sua voz em over, e as escolhas do diretor, para a montagem, ou seja, interferindo subjetivamente no processo de construção da narrativa. No filme, o eu de Timothy é desvelado pelas provas conduzidas por Herzog, o que para Arfuch (1992) potencializa o sentido. Herzog segue usando a singularidade da descrição (BARTHES, 2004, p.) e estabelece uma relação que não busca formar conclusões categóricas sobre essências alheias, mas consegue manter, conforme Salles (2005) uma virtuosa relação entre episteme e ética. E o testemunho da história, de acordo com Agamben (2008), tocou fundo com a plenitude, com a morte de Timothy Treadwell, que não pode mais testemunhar, porém, Herzog buscou recuperar um fragmento, uma possibilidade de testemunho de Tim, mesmo que fosse pela impossibilidade de testemunhar.

 

Palavras-chave: O homem urso 1. Interpolação 2. Ficção 3. Não ficção 4. documentário 5.

 

 

Autora: SALVO, Fernanda (UFMG).

Título: FIGURAÇÕES DA VIDA ORDINÁRIA EM TRÊS FILMES BRASILEIROS RECENTES

 

RESUMO

 

Esse artigo propõe uma discussão sobre os modos de inscrição de alteridade no cinema brasileiro recente, a partir da análise aos filmes Transeunte (Eryk Rocha, 2010), Avenida Brasília Formosa (Gabriel Mascaro, 2010) e O Céu sobre os Ombros (Sérgio Borges, 2010). As três narrativas apresentam um gesto peculiar ao se aproximar dos espaços de alteridade da sociedade, quando optam por tomar o cotidiano como um ponto de vista. O olhar que os filmes endereçam parece já enquadrar o mundo como imagem, quando criam uma cena que se constitui “em estreita contiguidade com o mundo vivido” (BRASIL E MESQUITA, 2012, pg. 31), colocando-se em interseção com o espaço-tempo dos sujeitos filmados. Assim, os filmes se abrem, no processo mesmo de sua tessitura, ao mundo em que habitam os sujeitos ordinários e ancoram sua força no presente, cifrando, a partir do cotidiano e da experiência, as potências e os afetos que animam os personagens.

Isso significa que a forma fílmica se permite contaminar pela matéria que lhe serve de objeto: a vida comum. Logo, o tempo narrado, a duração das imagens, os procedimentos adotados pela montagem, bem como outros recursos da linguagem cinematográfica são articulados por uma mise-en-scène que se faz muito próxima ao mundo filmado. Para além desse investimento estético dos filmes, há outro, que se entrelaça às disputas pelo poder na sociedade: ao abordar o cotidiano em cenários desprivilegiados da cidade, a cena inscreve a potência das vidas, quando os filmes dão a ver os hábitos, os falares e os espaços de invenção dos sujeitos filmados, mas evitando o recorte identitário.

Compreender que questões estéticas e políticas o cinema brasileiro coloca quando opta por atrelar a figuração da alteridade à vida ordinária é o objetivo das análises. Nosso pressuposto é o de que a alteridade não existe como coisa dada, ela resulta de uma construção, a partir de escolhas de abordagem e recursos expressivos mobilizados no encontro dos realizadores com o universo a ser filmado. Conforme afirma Comolli (2008), a representação é um campo de forças em que a alteridade é constitutiva das relações. Partindo da contribuição de Comolli e utilizando as noções de David Bordwell (2008) e Jacques Aumont (2003, 2006) sobre a mise-en-scène, é que propomos análises às três narrativas fílmicas, buscando identificar como os cineastas articularam os elementos da encenação, inscrevendo personagens, espaços e temporalidades, ao propor a figuração da vida ordinária.

 

Palavras-chave: Sujeito ordinário; cotidiano; mise-en-scène.

 

 

Autora: SATO, Sandra (PUC Minas).

Título: A FARSA NA ESCRITURA FÍLMICA

 

RESUMO

É provável que o gênero docufarsa (BERNADET, 2009), bem como o surgimento de novos gêneros do documentário, seja sintomático de que as produções do campo estejam cada vez mais colocando em questão aquilo que extrapola o real. O que a produção audiovisual contemporânea tem mostrado é que o termo documentário se tornou, cada vez mais, versátil e flexível, o que reafirma a dificuldade de marcar o campo de ação desse gênero. (PENAFRIA, 1999)       Em a crítica sobre o documentário Jesus no Mundo Maravilha… e outras histórias da polícia brasileira (2007), de Newton Cannito, o crítico Jean-Claude Bernadet cunhou o termo docufarsa, gênero híbrido entre o documentário e a farsa. A junção destas duas raízes já traz, logo de início, uma ambiguidade quase radical: do documentário espera-se que seja ético, engajado socialmente e de interesse público (MURRAY, 2004) e da farsa temos a modalidade cômica do drama que visa ridicularizar os vícios e as pessoas ou despertar o riso. (TAVARES, 1974) A particularidade de Jesus no Mundo Maravilha é que ele aborda a violência da polícia, especialmente os homicídios, através do “humor” e ousa ao escolher como locus um parque de diversões. O diretor opta confrontar as histórias dos personagens principalmente através da montagem e divide a dramática em três eixos: dos policiais, das vítimas e dos palhaços. A escolha do humor como forma “para revelar novamente essa realidade cruel” teve como intuito “despertar o choque”, visto que, para Cannito, o tema perdeu impacto por ter sido bastante explorado na TV e no documentário na forma de drama social. Além disso, o diretor acredita que a produção documentária brasileira “precisa trabalhar mais com os gêneros dramáticos” e observa que ela constrói “mal personagens por conta deste desprezo e desconhecimento da teoria dramatúrgica” (2011). As questões que o docufarsa bem como os novos gêneros do documentário nos incitam são, em alguma medida, “importantes pelo enriquecimento das formas fílmicas e pela obrigatoriedade de uma constante reflexão, quer teórica, quer prática dessas mesmas formas”. (PENAFRIA, 1999, p.30) Neste sentido, o artigo propõe refletir sobre as estéticas que abarcam os gêneros documentário e farsa; inferir sobre os possíveis conflitos da junção entre eles; e por fim sugerir um horizonte teórico-metodológico para identificar – na escritura fílmica – aquilo que particulariza o gênero docufarsa.

 

PALAVRAS-CHAVE: Gênero. Documentário. Docufarsa.

 

 

Autor: SOARES, Marcus Costa Braga (PUC Minas).

Título: CIDADE EM MOVIMENTO AS IMPLICAÇÕES DE NOVAS PRÁTICAS SÓCIOESPACIAL NO ESPAÇO URBANO

 

RESUMO

 

O pensamento moderno que se caracteriza pela tradição de demarcar limites rígidos da propriedade e da funcionalidade do espaço construído além de uma forte presença do individualismo, na passagem do século XX ao XXI, em seu quase esgotamento e renovação, começa a abrir brechas para uma nova mentalidade, marcando uma mudança de paradigma em muitos campos das ciências sociais. Ao mesmo tempo, essa passagem temporal também foi marcada pela superação da população mundial urbana a rural. As cidades, no caso, se encontram cada vez mais populosas, expandem-se vertical e horizontalmente, muitas vezes, de forma descontrolada, e, com isso, surgem novas dinâmicas e tensões sociais: as relações entre a população entre si e entre as instituições se tencionam gradativamente, as fronteiras entre público e privado se tornam mais flexíveis, a mobilidade urbana se encontra cada vez mais difícil e os níveis de salubridade diminuem: esses são demonstrativos da necessidade de novas formas de lidar com o espaço urbano para a vida em comunidade. Logo, é perceptível que a relação entre sujeito e cidade vem ocasionando novas formas de expressão e apropriação do espaço urbano alterando re-leituras de antigos hábitos e tradições citadinos. É dessa transformação sócio-espacial que o artigo vai tratar.

Para compreender esse conjunto de relações, vamos partir das reflexões em torno do espaço empreendidas por Fábio Duarte, relacionando com a noção de percepção de Alva Noë, com a finalidade de esclarecer como se dá o vínculo entre sujeito e ambiente urbano. Em seguida, recorremos aos estudos pioneiros da semiótica do ambiente urbano de Lucrécia D’Aléssio Ferrara, para, compreender como o ambiente urbano pode ser lido como um (hiper)texto, mostrando a importância de seu impacto informacional, que levam o sujeito a ação, interagindo e resignificando a cidade, dando a ela uma dimensão mais humana. A partir disso, vamos convocar o trabalho do grupo internacional mapping the commons (mappingthecommons.net) – que propõe uma busca ao comum, cartografando (no sentido de Deleuze e Guattari) nas cidades de Atenas, Istambul, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo e Quito eventos, obras e manifestações que são compartilhados por todos – com o intuito de mostrar a força das novas formas de interação entre a cidade e os sujeitos, refletindo em parâmetros de qualidade de vida, e abrindo opções para uma urbe mais humanizada e subjetiva.

 

Palavras-chave: 1. Espaço 2. Sujeito 3. Cidade 4.Interações 5. Cartografias do comum